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Pânico moral, desinformação e escola: quando o debate público se constrói a partir do medo

Atualizado: 27 de dez. de 2025

O discurso de ódio impulsionado por fanatismos ideológicos encontrou, nas redes sociais e na retórica política polarizada, um ambiente especialmente favorável para sua difusão e naturalização. A convergência entre tecnologia digital, intolerância e instrumentalização política do medo amplia o alcance dessas narrativas, contribuindo para a legitimação de práticas de censura, intimidação e, em situações mais graves, para a produção de violências simbólicas e institucionais no interior das escolas.

Um episódio emblemático desse processo ocorreu em Parauapebas (PA), durante o período do governo Bolsonaro, envolvendo a Escola Municipal de Ensino Fundamental Dorothy Stang. Na ocasião, o professor de Geografia Elton Reis ministrou uma palestra com o tema “Todos pelos direitos e deveres das crianças e adolescentes”, atividade inserida no contexto de ações educativas voltadas à formação cidadã. Durante sua fala, o docente enfatizou a importância de que crianças e adolescentes reconhecessem e denunciassem situações de opressão vivenciadas nos âmbitos escolar, familiar e social, afirmando: “tudo aquilo que vocês sentirem que precisa ser mudado na escola, na família, na sociedade, não guardem para vocês”.

A abordagem, alinhada aos princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente e às diretrizes da educação para a cidadania, foi rapidamente descontextualizada e passou a ser apresentada por setores ultraconservadores locais como uma suposta prática de “doutrinação”. A repercussão ganhou força nas redes sociais e foi amplificada por discursos políticos polarizados, culminando na exoneração do professor e em sua exposição pública por meio de acusações e difamações.

O caso evidencia como o discurso de ódio, quando articulado a estratégias de pânico moral e respaldado por atores políticos, pode se institucionalizar, produzindo efeitos concretos sobre o cotidiano escolar. A criminalização de práticas pedagógicas legítimas, nesse contexto, contribui para o silenciamento de vozes críticas, para a fragilização da autonomia docente e para a desestabilização do ambiente pedagógico, comprometendo o papel da escola como espaço de formação democrática e de promoção dos direitos humanos.


Por prof João Batista.

📌 Nota editorial


Este texto integra o projeto Ecos do Fascismo na Escola, que analisa os reflexos do autoritarismo contemporâneo e do discurso de ódio no cotidiano escolar, articulando História do Tempo Presente, educação e prática docente.


 
 
 

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Coordenação e autoria
Mestrando em Ensino de História – PROFHISTÓRIA / UNIFESSPA

(91) 98175-4960

Parauapebas, Pará, 68515-000

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